por mim!” . Nesta oração, a palavra “salve” é usada duas vezes, com sentido diferente a cada vez. Na primeira vez: “Deus te salve Santa Cruz...” ela indica uma saudação, como a usada no Pequeno Ofício da Imaculada Conceição: “Deus te salve, Virgem, Senhora do mundo...” ou na oração da “Salve Rainha”. Saúda-se, em nome de Deus, a Cruz. Evidentemente não se trata aqui das duas hastes de madeiras, das quais pendeu o Senhor. Quando saudamos a Cruz, na verdade, dirigimo-nos a Jesus Crucificado.
Por que o fazemos? Sabemos que Jesus está vivo, ressuscitado dentre os mortos. Por que insistimos em sua paixão, em sua morte? Por que destacamos, dentre os fatos de sua vida, justamente esses tão dolorosos?
Sabemos, ó Cristo, quão importantes foram tua encarnação e nascimento, quão maravilhosos foram teus milagres. Sabemos quão decisiva foi tua ressurreição dentre os mortos e quão gloriosa foi tua ascensão à direita do Pai. Mas queremos destacar tua paixão e morte, porque foram elas, entre todos os eventos de tua santa vida, os que mais te custaram e os que melhor revelam teu amor por nós! (Evangelho da festa).
Saudamos Jesus Crucificado, digno de toda honra e glória com a qual o Pai o cumulou, quando, por ter sofrido por amor a nós, recebeu o Nome maior que todo o nome (Fl 2ª. leitura).
Mas o segundo “salve” da oração tem um sentido diferente: “por ti me salve quem em ti morreu por mim!” Trata-se, aqui, do verbo salvar, um pedido de salvação. Pede-se a Cristo a salvação, invocando como causa a morte de cruz que Ele sofreu por amor a nós. A breve oração popular está perfeita! Não há outro motivo ou causa pela qual se possa pedir a salvação, a não ser os sofrimentos e a paixão do Senhor. Não há outro título ou mérito que possam ser invocados como direito, daquilo que só poderemos receber como graça, como presente. Se existe esperança de salvação, mais ainda, se temos confiança de que seremos salvos, isso se deve unicamente aos merecimentos da Cruz do Senhor.
Resta, porém, saber, a que tipo salvação nos referimos. Porque existem compreensões diferentes do que seja “salvação” e, consequentemente, a oração pode pedir coisas diferentes, conforme a compreensão daquele que a reza.
Por muito tempo, a mensagem de salvação trazida por Jesus, foi de tal modo espiritualizada, que praticamente não fazia referência à vida presente, toda esperança de salvação era vista como algo futuro, post mortem. Não é essa a mensagem do Evangelho. “De fato, a salvação que Jesus faz acontecer diante das insuficiências humanas se revela pluriforme: cura doentes, reintegra leprosos na sociedade, prega a Boa Nova aos pobres, restitui ao ser humano o seu lugar diante da Lei, perdoa pecados, revela a misericórdia de Deus, possibilita experiências que despertam esperança e amor, numa palavra, traz vida a seus contemporâneos” [1]. Mesmo tendo sua plenitude deixada para o mundo vindouro, a salvação cristã já começa na vida presente.
Por outro lado, fala-se muito, nos dias de hoje, de uma salvação limitada à dimensão terrestre. Assistimos “uma autêntica inflação do ‘sagrado’, uma disposição generalizada de crer em tudo, sempre numa linha terapêutica como cura de males e libertação de aflições. Examinado com mais cuidado, esse fenômeno traduz uma busca de salvação limitada a esta vida, imanente a este mundo, que reinterpreta as verdades cristãs tradicionais na ótica do individualismo hedonista, traço cultural marcante em nossa cultura. Desse modo, usamos do sagrado a nosso serviço, reinterpretando-o numa perspectiva diferente da sua, que nos deixa prisioneiros de nossas necessidades e de nossos sonhos de felicidade” [2]. Essa expectativa leva, inevitavelmente, à frustração. A vida presente nunca é plena e será sempre transitória, como bem nos recordam as cruzes plantadas à beira dos caminhos!
A salvação trazida pela Cruz do Senhor não pode ser reduzida a nenhuma dessas dimensões, ela deve ser compreendida e acolhida de modo integral. A Cruz orienta e dá sentido à nossa vida, um sentido de doação, de entrega de si. A Cruz aponta-nos para a eternidade e dá-nos a esperança da salvação definitiva. Pelos merecimentos do Senhor crucificado, esperamos viver um dia na glória da ressurreição. Assim seja.
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