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Homilia para a Festa de Cristo Rei A

Leituras: Ezequiel 34,11-12.15-17; Sl 23; 1ª. Coríntios 15,20-26.28; Mateus 25,31-46. “... é preciso que Ele reine”.

Um dos mais graves problemas que enfrenta o Cristianismo é a separação prática que acontece, por parte dos cristãos, entre a fé e a vida. Explico-me: considera-se que as coisas ligadas a Deus e a fé cristã estejam limitadas a determinados espaços (as igrejas) e períodos de tempo (o momento das celebrações). Nas igrejas, nas missas e celebrações, rezamos pedindo que Deus nos ajude em nossos projetos e necessidades, mas, nos outros momentos e lugares, a vida se desenrola praticamente como se Deus não existisse. O povo da antiga aliança sofreu também a mesma tentação: prestavam culto a Deus no Templo de Jerusalém, lá ofereciam sacrifícios, pagavam promessas, mas, voltando para suas casas, no resto de seus dias, pretendiam guiar a vida conforme a própria vontade, não se importando muito com qual fosse o mandamento do SENHOR. E já na antiga aliança o SENHOR rejeitava esse tipo de culto: “Parai de trazer oferendas sem sentido! Incenso é coisa aborrecida para mim! Lua-nova, sábado (dia santo), celebração solene..., não suporto maldade com festa religiosa. Odeio vossas luas novas e dias santos. Tudo isso é um peso que não agüento carregar. Quando estendeis as mãos para mim, desvio o meu olhar. Ainda que multipliqueis as orações, de forma alguma atenderei, porque vossas mãos estão sujas de sangue. Lavai-vos, limpai-vos, tirai da minha vista as injustiças que praticais. Parai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido, fazei justiça para o órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,13-17). O que já era válido na aliança antiga, é ainda mais verdadeiro para a fé cristã. O âmbito da religião cristã não pode, de forma alguma, limitar-se aos ambientes e momentos de culto religioso. Mais do que qualquer outra, a fé cristã deve atingir e transformar toda vida e existência daquele que crê. O domínio de Cristo deve estender-se a todos os aspectos e momentos da existência do fiel. “Pois é preciso que Cristo reine, até que Deus ponha todos os seus inimigos debaixo de seus pés” (1Cor 15,25). Porém, o domínio exercido por Jesus não se assemelha, de modo nenhum, às pretensões de um tirano, de um ditador que pretende servir-se dos demais em interesse próprio. Seu domínio significa vida e liberdade aos que lhe estão submetidos. Por isso, no reinado de Cristo, “o último inimigo a ser destruído é a morte” (1Cor 15,26). O ato pelo qual Cristo estabeleceu sua vitória e domínio, inaugurando a nova e eterna Aliança entre Deus e a humanidade, é aquele mesmo que se constitui o único culto perfeito que se ofereceu a Deus, não um mero ritual religioso, mas a entrega que Cristo fez de si mesmo ao Pai, quando pendia da cruz. Também o culto que nós cristãos somos chamados a oferecer ao SENHOR não se limita a uma mera cerimônia religiosa, mas se estende à entrega da própria vida a Deus, na obediência à sua Palavra: “Eu vos exorto, irmãos, – dizia o Apóstolo Paulo – pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos (oferecerdes a vós mesmos) em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm 12,1-2). Por isso, no julgamento final irá contar, fundamentalmente, o bem que praticamos ou deixamos de praticar. A misericórdia para com os necessitados é o serviço que se pode prestar ao Rei Messias e que nos garantirá acesso ao seu Reino: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me” (Mt 25,35-36). Certamente os atos de culto, as celebrações, novenas e rituais mantém o seu valor, enquanto também são expressões de nosso amor a Deus. Mas, na nova Aliança, eles não bastam. “Religião pura e sem mancha diante do Deus e Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27), escrevia Apóstolo São Tiago. Em razão disso, a missão dos fiéis leigos tem fundamental importância na vivência da fé cristã. No linguajar da Igreja, “leigo”, longe de significar aquele “que revela ignorância ou pouca familiaridade com determinado assunto” [1], designa aquelas pessoas batizados que têm como missão específica, a santificação do mundo a partir de dentro, dos ambientes onde a vida se desenvolve: a família, a escola, a indústria, o comércio, a política, etc. (distinguindo-se dos sacerdotes e religiosos, que se dedicam prioritariamente ao culto divino). Todos estes ambientes precisam ser transformados pela luz que o Evangelho irradia, precisam ser submetidos ao domínio de Cristo, para que possam corresponder ao projeto de Deus e concorrer efetivamente para o bem e a salvação das pessoas. Na Festa de nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo celebra-se o dia do fiel leigo (a), na esperança de a atuação cristã daqueles que vivem e trabalham em meio às realidades que o mundo apresenta, possa conduzir a humanidade a Deus e assim realizar as súplicas que o Senhor ensinou na oração do Pai nosso: “venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Assim seja. Côn. Carlos Antônio da Silva. [1] Dicionário Houaiss. O teólogo Pe. Antônio Almeida conta que indagando sobre o local de um encontro de leigos que ele iria assessorar, ouviu a pergunta: “Leigos em quê?” (ALMEIDA, Leigos em quê?, Ed. Paulinas, São Paulo, 2006, p. 15).

 
 
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