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A espera vigilante

Chegamos novamente ao tempo do Advento, um tempo de espera, de expectativa, que, mais do que qualquer outro tempo litúrgico celebrado pela Igreja (Quaresma, Tempo Pascal, etc), caracteriza o período em que vivemos, no qual a atitude de espera é marca característica da vida cristã. A espera, com efeito, implica, ao mesmo tempo, consciência de necessidade e confiança. Quem espera é porque ainda não tem: quem já possui não tem necessidade de esperar! Quem espera é porque sabe que pode conseguir: qu

Assim é nossa vida cristã. Nós sabemos que o ser humano não se basta, nós não somos suficientes para nós mesmos! Isso é especialmente sentido na época em que vivemos. O ser humano sempre percebeu que necessita de uma salvação, mas já houve um tempo em que acreditava que esta viria “naturalmente”, como resultado de uma evolução da espécie humana, do progresso do pensamento, das ciências, etc. Hoje essa possibilidade é deixada de lado! A humanidade chegou a níveis elevados do pensamento, obteve altíssimo progresso tecnológico, mas, tudo isso, não foi capaz de lhe trazer a felicidade, a salvação. Pelo contrário, a cada resposta obtida pela filosofia ou pelas ciências, dez novas perguntas apareciam. A cada cura descoberta, novas doenças surgiam. O progresso tecnológico acentuou a desigualdade entre as pessoas, fez crescer as injustiças e o sofrimento. Mais ainda, progresso algum ofereceu resposta à questão do sentido, do significado que deve ter a vida humana, nem foi capaz de acabar com a sombra maior que a apavora: a morte que se aproxima cada dia. No estado atual em que a humanidade se encontra, sua única esperança é um Deus que a salve, concluiu um importante filósofo da atualidade [1].

Assim se expressa também a primeira leitura que ouvimos, uma profecia de Isaías, que se apresenta quase como um gemido: “Ah! Se rompesses o céu e descesses!” (Is 63,19). Essa descida daquele que pode nos salvar é vista como um puro dom, um favor que Ele nos faz. O profeta sabe e afirma que não possuímos merecimentos pelos quais possamos invocar um direito a receber ajuda e salvação: “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas obras são como pano sujo” (Is 64,5). Mas isso não é capaz de abalar sua confiança, pois esta não se apóia em merecimentos que possa invocar, mas na bondade que ele sabe que tem o Senhor: “Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos obras de tuas mãos” (Is 64,7).

Para nós cristãos, essa confiança tem um fundamento ainda mais profundo. Sabemos que a encarnação e a ressurreição de Jesus transformaram a história humana. O mundo não é mais um círculo fechado, nele foi aberto um caminho de acesso à salvação e à vida definitiva. O Filho de Deus, que é a vida, desceu a esse mundo, cumprindo o que antes fora anunciado (Is 64,2), e voltando ao Pai, tornou-se, Ele mesmo, o caminho da salvação.

Por uma razão, que só mesmo a Providência divina conhece, o mundo novo começado com a ressurreição de Jesus ainda não se manifestou em toda sua plenitude: Deus concede um tempo à humanidade. Mas o Senhor que se assentou glorioso à direita do Pai, voltará para instaurar o seu Reino: “É como um homem que, ao viajar, deixou sua casa e confiou a responsabilidade a seus servos. A cada um sua tarefa, mandando que o porteiro ficasse vigiando” (Mc 13,34).

Por ora, a salvação parece não estar atuante, a vida parece ser continuamente derrotada pela morte. Mas sabemos que a vitória da salvação e da vida já começaram com a ressurreição de Jesus Cristo, vencedor da morte! A aurora de um mundo novo já surgiu, o Sol e o Dia virão também, necessariamente: ninguém será capaz de detê-los! Esta é a esperança cristã!

Por isso, nós cristãos fomos colocados por Deus como vigias, como sentinelas que devem estar atentos, prontos a dar uma resposta à humanidade, que vem até nós perguntar: “Sentinela, a quantas está a noite? Sentinela, a quantas está a noite?” (Is 21,11), para a ela responder, como o Apóstolo: “A noite está quase passando, o dia vem chegando: abandonemos as obras das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia” (Rm 13,12-13), enquanto aguardamos a vinda do Senhor. Assim seja.



[1] “Nur noch ein Gott kann uns retten”; Martin Heiddeger, entrevista à revista Spiegel 23/09/1966. “A filosofia não poderá realizar nenhuma mudança imediata no atual estado das coisas do mundo. Isto vale não só para a filosofia, mas especialmente para todos os esforços e afãs meramente humanos. Só um Deus pode ainda salvar-nos. A única possibilidade de salvação a vejo em prepararmos, com o pensamento e a poesia, uma disposição para a aparição do Deus ou para sua ausência no ocaso” (http://www.heideggeriana.com.ar/textos/spiegel.htm. A fé cristã garante-nos a vinda de Deus, e nos ensina que o meio de “preparar a disposição para espera-lo” não é somente o pensamento e a poesia, mas o empenho ético, a busca do bem, da verdade, da justiça) .

 
 
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