Discípulo missionário.
Homilia para a Festa do Batismo do Senhor B
Leituras (próprias do Ano B): Isaías 55,1-11; Cântico Is 12 80; 1ª. João 5,1–9; Marcos 1,7-11.
Muitos questionam a prática católica de batizar crianças [1]. A Igreja o faz consciente de que o Batismo é um dom absolutamente gratuito de Deus, um presente de tal grandeza que ultrapassa nossa capacidade de merecimento. Por isso é concedido também a criançinhas, que nada fizeram para merecê-lo, mas o recebem como puro dom. A gratuidade do dom batismal já fora profeticamente anunciada por Isaías na 1ª. leitura que ouvimos: “Oh! Todos que estais com sede, vinde buscar água! Quem não tem dinheiro venha também! Comprar para comer, vinde, comprar sem dinheiro vinho e mel, sem pagar!” (Is 55,1).
A prática, porém, tem seus limites, que não decorrem, em si, do fato de se batizar crianças, mas da falta de ambiente cristão-católico onde a fé possa se desenvolver. Infelizmente são muitas as famílias que levam os filhos até o Batismo e não se preocupam minimamente com sua educação católica. E os padrinhos, que, em boa parte das vezes, participam da vida da Igreja ainda menos que os pais, acabam não ajudando em nada.
Em conseqüência disso, para muitos católicos, o Batismo que receberam é uma realidade distante, com pouca conseqüência prática em suas vidas, sem influência ou relação com sua conduta. Na prática vivem como se não fossem batizados!
Jesus seria alguém que poderia não ter dado muita importância ao Batismo que recebeu. Afinal, o Batismo que João Batista ministrava no Jordão estava longe do significado do Batismo cristão, do qual Jesus mesmo é a fonte. “Eu vos batizo com água, para a conversão”, disse o Batista, “mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. /.../ Ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mt 3,11). No mais, Jesus não tinha pecados a serem purificados, para se sujeitar àquele rito de penitência para a conversão dos pecados (Lc 3,3) e Filho de Deus Ele já era desde a eternidade! Que sentido poderia ter um rito batismal para Jesus?
Jesus, porém, levou a sério o Batismo que recebeu. Prova disso encontramos em um trecho do evangelho que, talvez por sua dificuldade, ficou fora das leituras das missas dominicais [2]. Os chefes judeus perguntaram a Jesus sobre a origem de sua autoridade “Com que autoridade, fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?” (Mc 11,27), Jesus respondeu fazendo uma contra-pergunta? “Vou fazer-vos uma só pergunta. Respondei-me, que eu vos direi com que autoridade faço isso. O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei-me!”(Mc 11,29-30). Os judeus ficaram apurados, pensando: se dissessem que o batismo de João “era do Céu” (isto é, de Deus) Jesus iria questionar porque não acreditaram nele; se dissessem que “era dos homens”, teriam problemas com o povo, que tinha João Batista como profeta. “Responderam então a Jesus: ‘Não sabemos’. E Jesus retrucou-lhes: ‘Pois eu também não vos digo com que autoridade faço essas coisas!’” (Mc 11,33).
À primeira vista, a resposta de Jesus parece uma estratégia para fugir de uma resposta direta. Tal, porém, não combina com o comportamento do Senhor, que nunca foi dissimulado e nem teve problemas em falar a verdade a quem quer que fosse. A resposta de Jesus tem outro sentido. Significa, em outras palavras: “Minha autoridade se fundamenta sobre o que aconteceu comigo, por ocasião do Batismo de João” [3].
Jesus não tinha pecado, não necessitava daquele rito de purificação, mas, em sua solidariedade salvadora, quis recebê-lo em favor de nós, pecadores. Deus Pai respondeu ao gesto de humildade de Jesus, dando-lhe a unção do Espírito e declarando-o seu Filho, seu Ministro (= Servo; cf. Is 42,1) plenipotenciário, Aquele que pode agir em seu Nome e com sua autoridade divina: “Tu és o meu Filho amado; em ti está o meu agrado” (Mc 1,11). Jesus fez, em seu Batismo, a experiência de sua vocação; a partir desse momento Ele iniciou seu ministério público, agindo em nome de Deus: “Eu vim em nome do meu Pai” (Jo 5,43), Jesus iria dizer mais tarde. Deus, por sua vez, que o havia credenciado, confirmava suas palavras e ações, como afirmou o Apóstolo São Pedro: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia, depois do batismo pregado por João: como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Por toda a parte, ele andou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo; pois Deus estava com ele” (At 10,37-38).
A partir de seu Batismo, Jesus, “mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência” (Hb 5,8), ou seja, assumiu o lugar de discípulo. Esse foi o caminho que lhe apontou a voz do Pai, quando lhe falou citando (de modo adaptado) o que antes dissera pelo profeta Isaías: “Eis o meu Servo /.../ é o meu escolhido, alegria do meu coração” (Is 42,1). A esse Servo, a quem seria confiada a redenção da humanidade, Deus concedeu um “ouvido de discípulo” (cf. Is 50,4). E é como discípulo que, após seu Batismo, Ele foi conduzido ao deserto, para no silêncio, continuar escutando a voz do Pai. Só depois disso Ele foi “para a Galiléia, proclamando a Boa Nova de Deus” (Mc 1,14), qual missionário do Pai.
Hoje, mais do que nunca, se faz necessário que os batizados se encontrem pessoalmente com Jesus Cristo, se encantem com Ele. “A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor suscitam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo, uma adesão de toda sua pessoa, ao saber que Cristo o chama pelo nome (cf. Jo 10,3)” [4]. Esse chamado aconteceu em nosso Batismo; sua resposta acontece no dia-a-dia de nossas vidas, com “um ‘sim’ que compromete radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6). É uma resposta de amor a quem o amou primeiro ‘até o extremo’ (cf. Jo 13,1)” [5].
Como Jesus foi discípulo missionário do Pai, o cristão, unido a Cristo pelo Batismo, torna-se seu discípulo missionário: “O Espírito Santo, que o Pai nos presenteia, nos identifica com Jesus-Caminho, abrindo-nos a seu mistério de salvação para que sejamos seus filhos e irmãos uns dos outros; identifica-nos com Jesus-Verdade, ensinando-nos a renunciar a nossas mentiras e ambições próprias, nos identifica com Jesus-Vida, permitindo-nos abraçar seu plano de amor e entregar-nos para que os outros ‘tenham a vida n’Ele’” [6].
Que a celebração do Batismo do Senhor, desperte em nós a consciência de nosso Batismo e da graça de Deus que nele nos foi concedida. Assim seja.
[1] Também as Igrejas Ortodoxas e diversas Comunidades eclesiais evangélicas (como a Igreja Metodista) o fazem.
[2] Mc 11,27-33 (// Lc 20,1-8). O texto paralelo, Mt 21,23-27, é lido na 2ª. feira da 3ª. semana do Advento.
[3] O especialista em Sagradas Escrituras, J. JEREMIAS, ao analisar esse texto, chega a essa conclusão (Teologia do Novo Testamento, Teológica e Paulus, São Paulo, 2004, p. 105).
[4; 5; 6] V Conferencia General del Episcopado Latinoamericano e de el Caribe, Aparecida Documento final, nn. 136-137, Lima, 2007.