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A solidariedade salvadora.

Leituras: Jó 7,1-4.6-7; Sl 146;
1ª. Coríntios 9,16-19.22-23; Marcos 1,29-39.
Homilia para o 5º. Domingo do Tempo Comum B

No dia onze de fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lourdes, cujo santuário recebe anualmente milhares de doentes, comemora-se o dia do enfermo. A liturgia de hoje, como que antecipando essa celebração, apresenta-nos o Senhor Jesus curando a sogra de Pedro e a “muitos que sofriam de diversas enfermidades” (Mc 1,34). Convém, pois, refletir hoje sobre a doença e o sofrimento, realidades que fazem parte de nossa vida humana.

Na 1ª. leitura que ouvimos, o livro de Jó trata o tema com bastante realismo. Jó, homem inocente (Deus mesmo o admite), que sofre com a doença e outros males (perda dos bens, dos filhos) representa muito bem a gravidade dos sofrimentos que se abatem sobre a humanidade.

Na leitura que ouvimos, Jó compara a vida humana com três situações proverbialmente miseráveis: à de quem vai a uma guerra, à labuta de um diarista que não tem garantia nenhuma quanto ao dia seguinte e ao trabalho penoso de um escravo [1]. Nada lhe serve de consolo: “Apenas me deito, digo: Quando irei levantar-me? E então, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até ao anoitecer” (Jó 7,4). Não faltarão pessoas a se reconhecer nesta descrição!

Seu sofrimento é ainda mais agudo pela proximidade da morte, que pouco tempo concede a qualquer ajuda que lhe poderia ser oferecida: “Meus dias correm mais rápido que a lançadeira e se consomem, tendo acabado o fio. Lembra-te de que minha vida é apenas vento, e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” (Jó 7,6-7).

O livro de Jó não traz uma resposta ao problema do sofrimento, principalmente do sofrimento do inocente. Mostra, porém, que se trata de uma realidade complexa demais para que ser explicada com meras palavras. Os “amigos” que falavam com Jó, tentando apresentar uma razão para os seus sofrimentos, só disseram bobagens e até mesmo Jó terminou seus discursos reconhecendo que falou sem nada entender, de coisas que ultrapassavam o seu conhecimento, sua compreensão (cf. Jó 42,3). Permanece somente a verdade que Deus é maior que tudo isso e a Ele o ser humano deve entregar-se num ato de fé.

Mas, e o Evangelho de Cristo traz essa resposta? Jesus trouxe uma explicação para o mistério da dor, do sofrimento da humanidade?

Colocada a questão desta maneira, somos forçados a responder que não. Cristo não explicou a razão, o “porquê” do sofrimento humano. Muitas são as suas causas, qualquer resposta simplificadora fugiria da verdade. E, para sermos honestos, diante da realidade da dor, que palavra, ou que explicação bastaria? Jesus, porém, trouxe algo melhor que explicações, que respostas a “porquês”. Jesus apresentou uma finalidade (um “para que”) ao sofrimento, bem como indicou um caminho capaz de aliviá-lo.

Esse caminho é o da solidariedade. Os milagres realizados pelo Senhor não foram apenas curas físicas; se assim fosse, não teriam adiantado muita coisa, visto que todos aqueles que Ele curou, mais tarde acabaram enfrentando outras doenças e morreram, como é o destino comum a toda pessoa humana. Os milagres de Jesus foram uma expressão de sua solidariedade com os que sofrem.

Essa solidariedade com o sofrimento humano, Jesus a demonstrou em grau máximo na hora de sua Paixão. Um providente desígnio do Pai quis que seu “Filho único, Autor da vida, Médico dos corpos e das almas, assumisse nossas enfermidades, para nos socorrer na hora das provações e nos santificar na experiência da dor” [2]. Após a Paixão, ninguém pode dizer a Deus que Ele não conhece nossas dores, nosso sofrimento: Ele as conhece a partir de dentro, por experiência própria. Jesus enfrentou toda angústia da dor e da morte humana, mostrando que mesmo nela é possível manter a fidelidade ao Senhor.

Uma das piores tentações que enfrenta aquele que sofre é a sensação de abandono por parte de Deus: “Diz consigo mesmo: ‘Deus se esqueceu, desviou o rosto, ele não vê mais’” (Sl 10,11). O Evangelho mostra justamente o contrário, Jesus está presente junto aos que sofrem, estende a mão para socorrê-los. Essa proximidade é tão grande, que Cristo chega a ponto de se identificar com os eles: “eu estava /.../ doente, e cuidastes de mim /.../ todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,36.40).

O socorro divino, algumas vezes, assume a forma de cura física da enfermidade, em outras vezes terá a forma de força para enfrentar os sofrimentos que fazem parte da vida humana, mesmo que não seja possível entender o seu porquê. Será a percepção de que tudo, até mesmo o sofrimento, contribui para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8,28). Será a possibilidade encontrar um sentido de salvação nos sofrimentos padecidos, como encontrou o apóstolo Paulo: “Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).

A forma sacramental desse socorro divino é a unção dos enfermos, ministrada aos fiéis que começam a correr perigo de morte por motivo de doença, debilitação física ou velhice [3]. Nesse sacramento se implora ao Senhor que conceda, além da cura física (se essa for de sua vontade), o conforto celeste, o perdão dos pecados e a graça de participar, pelos sofrimentos, dos merecimentos da Paixão de Cristo, da qual nos vem a vitória da Páscoa. “Pela unção do óleo sacramental e pela prece da Igreja, tirais os pecados e aliviais nossas penas. Pela infusão do Espírito Santo, nos tornais participantes da vitória pascal” [4].

A solidariedade é o caminho que Jesus aponta como alívio da dor e do sofrimento humano. Em um mundo onde o sofrimento se apresenta em proporções além de nossa compreensão, o único remédio é a ajuda fraterna que um pode oferecer ao outro. Somos chamados a assumir um compromisso com aqueles que sofrem! Através de nossa ajuda, de nossa compaixão, irá se manifestar a solidariedade salvadora do Senhor, capaz de realizar aquilo que ultrapassa nossas limitadas capacidades. E é também através da dedicação dos demais que, nós mesmos, poderemos receber o auxílio divino no momento da dor, da enfermidade.

A presença do sofrimento no mundo torna-se, assim, ocasião de imitarmos a misericórdia divina, que nós mesmos esperamos alcançar no julgamento final. Assim seja.


[1] Cf. MACHENZIE e MURPHY, Jó, em BROWN e outros, Novo Comentário Bíblico São Jerônimo, Academia Cristã e Paulus, São Paulo, 2007, p.933.
[2 e 4] Missal Romano , Prefácio da unção dos enfermos.
[3] Catecismo da Igreja Católica § 1514.

 
 
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