As dificuldades decorrente de fazer o bem
Leituras: Levítico 13,1-2.45-46; Sl 101; 1ª. Coríntios 10,31–11,1; Marcos 1,40-45.
Os evangelhos das semanas anteriores mostraram-nos Jesus realizando diversos milagres, curas e exorcismos. Ainda que todos esses feitos fossem admiráveis, nenhum deles impressionou tanto seus contemporâneos como a cura do leproso, prodígio que, na compreensão da época, estava além de qualquer possibilidade ou expectativa humana. O leproso era obrigado a usar sinais de luto (Lv 13,45), era considerado um cadáver ambulante, sua cura equivalia a uma ressurreição [1].
Diversas enfermidades de pele (Lv 13,1-37), como também certos tipos de mofo de roupas ou construções (Lv 13,47-59; 14,34-48), chamados pelo nome genérico de lepra, causavam verdadeiro pavor nos povos antigos. Ao medo do contágio, somava-se a crença de que a lepra era castigo pelo pecado [2], agravando-se a exclusão do doente, que, afastado da população, era entregue à própria sorte: “O homem atingido de lepra andará com as vestes rasgadas, os cabelos soltos e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver contaminado de lepra, será impuro. Habitará a sós e terá sua morada fora do acampamento” (Lv 13,45-46). Sua reabilitação (no caso de engano com relação à doença), só poderia ser feita após constatação oficial, realizada pelos sacerdotes (cf. Mc 1,44).
Jesus encheu-se de compaixão pela desgraça na qual se encontrava aquele homem. Desrespeitando os antigos tabus, que proibiam severamente de tocar em qualquer leproso, estendeu a mão e tocou no enfermo. E esse toque ocasionou como que um contágio às avessas: ao invés do doente transmitir a enfermidade, o sadio transmitiu-lhe a cura. “Belo porque corrompe com sangue novo a anemia. Infecciona a miséria com vida nova e sadia” [3], canta um Auto de Natal Pernambucano.
Vemos de novo a lição de solidariedade que o evangelho da semana passada nos ensinava! Vemos o poder restaurador que tem compaixão!
Mas o evangelho de hoje conta-nos um detalhe interessante, as conseqüências do ato não somente para a pessoa que foi curada, mas também para Jesus, que, movido por compaixão, realizou aquela boa ação: “Jesus já não podia entrar, publicamente, na cidade. Ele ficava fora, em lugares desertos” (Mc 1,45). Até aquele momento, quem ficava isolado em lugares desertos era o leproso; Jesus, ao contrário, andava pelas “sinagogas por toda a Galiléia” (Mc 1,39). A partir da cura, e em razão da publicidade indesejada que lhe proporcionou o homem que fora curado, as coisas parecem ter-se invertido. O que fora leproso vai até o Templo e daí sai a andar no meio das pessoas; Jesus, que até então vivia no meio do público, precisa ficar isolado. Se a cura resultou em vantagem para o homem, resultou, sem dúvida, em desvantagem para Jesus.
É importante refletir sobre isso. Na liturgia da semana passada já ouvimos a leitura do livro de Jó, que desmascarava a equação [virtude = felicidade]. Ora, essa equação soa aos nossos ouvidos como fruto da justiça mais elementar. Parece-nos “natural” que fazer o que é correto, fazer o bem, traga-nos sempre bons resultados. Em razão disso, normalmente esperamos ser recompensados pelo bem que praticamos, mesmo que a recompensa seja um simples gesto de gratidão.
O Evangelho de Cristo tem, porém, uma moral mais elevada. “Se amais somente aqueles que vos amam, que generosidade é essa? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que generosidade é essa? Os pecadores também agem assim. E se prestais ajuda somente àqueles de quem esperais receber, que generosidade é essa? Até os pecadores prestam ajuda aos pecadores, para receberem o equivalente” (Lc 6,32-34).
Por isso precisamos refletir seriamente sobre qual é nossa intenção ao fazermos o bem. Se o fazemos esperando que isso nos traga vantagens (sejam elas econômicas, emocionais ou afetivas, tanto faz), o que há de extraordinário em nosso gesto? “Os pecadores também agem assim”. Há nesse caso o risco de uma dupla frustração. A primeira é não obtermos aquilo que desejávamos (seja o que for: vantagens, reconhecimento ou elogios). A vida nos ensina que fazer o que é correto, fazer o bem, muitas vezes não traz vantagens, mas sim problemas. Isto, todavia, não é motivo para abandonarmos nossa retidão! Na busca do bem, da verdade, da justiça, não se deve olhar benefícios que, supostamente, nos possam advir, mas olhar a vontade de Deus e o que é certo. Aí se testa se nossa generosidade é realmente verdadeira!
Mas (Deus não permita que isso aconteça!), pior ainda será a frustração de ouvir no julgamento final: “já receberam sua recompensa (Mt 6,2), nada mais tem a esperar de mim”. Pois, se o que esperávamos quando fazíamos o bem eram vantagens ou aprovação por parte dos homens, recebidas estas, que mais poderemos cobrar? “Toma o que é teu, o que realmente querias, e vai embora!” (cf. Mt 20,14), poderá nos dizer, com toda razão, o Supremo Juiz. Só a bondade realmente gratuita é que conta aos olhos de Deus!
A todos nós, a quem o pecado feriu de egoísmo, mais uma vez o Bom Jesus se apresenta como o melhor modelo. Ele foi solidário, foi bom e compassivo, mesmo quando isso não lhe trouxe vantagem alguma, ao contrário, trouxe-lhe o sofrimento e a cruz. De sua solidariedade salvadora brota a força para sermos bons e generosos, de sua misericórdia vêm-nos a esperança da salvação. “Cristo não buscou a própria satisfação” (Rm 15,3) “por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Fl 2,9). A Ele demos também glória e louvor para sempre. Amém.