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O QUE NEM DEUS PODE FAZER

Homilia para o 14º. Domingo do Tempo Comum B
Leituras: Ezequiel 2,2-5;
Sl 122; 2ª. Coríntios 12,7-10; Marcos 6,1-6.,

Nós, seres humanos gostamos do poder: eis aí o ídolo que tenta a humanidade desde o princípio: “sereis como deuses” (Gn 3,5), disse à serpente aos primeiros pais. Muitas vezes o ser humano se identifica, ele mesmo, com esse ídolo, criando a ilusão de ser um deus todo-poderoso, um super-homem. Tal pretensão (fora dos quadrinhos) quando não é cômica é trágica! Lembro-me de um sujeito (pobre maluco!) que acreditava piamente ser ele o responsável pelo equilíbrio da terra e dos astros. Muitos outros, não tão dementes como ele, acreditam também serem capazes de realizar coisas que ultrapassam a capacidade humana.

Tal pensamento, porém, não é inocente, como não foi inocente a ideologia do Super-homem, pregada por um filósofo alemão (o qual, diga-se de passagem, morreu louco) [1], que abraçada posteriormente pelo nazismo, foi culpada por tantos horrores. A pretensão ou ilusão de ser um super-homem nasce do orgulho, que é, no fundo, um problema moral.

Muito mais grave, porém, é quando se pretende colocar o ídolo do poder no lugar do único Deus verdadeiro, seguindo, mais ou menos a lógica de que “se eu não posso ser todo-poderoso, ao menos adoro um deus que o seja”. Isso acontece principalmente através de uma compreensão equivocada do conceito da onipotência divina, entendendo a afirmação do Deus todo-poderoso como aquele que pode qualquer coisa, mesmo que esta seja absurda ou má.

Mas tal compreensão da onipotência divina está errada. A onipotência não se estende ao absurdo: “poderia Deus criar uma pedra tão pesada que não conseguisse levantá-la?”[2], pergunta um monge, brincando com a questão. Ou, mais grave ainda, não se pode pensar a onipotência divina estendendo-se ao mal. “Deus é amor” (1Jo 4,8) e o Amor só pode o bem, nunca o mal.

Estamos diante de um dos mistérios do Deus cristão! Certamente Deus não precisaria ter-nos criado. De sua parte, a criação é fruto de um ato absolutamente livre, sem a menor sombra de necessidade. Deus também poderia ter-nos criado como pedras, ou árvores, que seguem inevitavelmente as leis da natureza, sem delas nunca se afastar. Mas, se assim fosse, Ele nunca teria amigos, não teria parceiros de aliança. Uma samambaia ou um pedregulho não pode amar e nem ser amado de verdade: o amor só é possível entre pessoas! Deus não precisa de nosso amor (o Amor infinito existente na Trindade lhe basta), mas quis compartilhar seu amor e, por isso, decidiu criar pessoas livres, capazes de amar e serem amadas.

Porém, pessoas livres, precisamente porque são livres, são também capazes de rejeitar esse amor! E Deus não pode impô-lo, forçando a pessoa! Deus não pode forçar os israelitas “de cabeça dura e coração de pedra” (Ez 2,4; 1ª. leitura) a acolher a palavra que lhes enviava pelo profeta Ezequiel. Também Jesus não pode forçar seus conterrâneos a acolher sua mensagem, ainda que se Ele mesmo ficasse espantado com a incredulidade daquela gente (evangelho).

Eis é o grande mistério do Deus crucificado! Como o Filho, que ao assumir a condição humana, por amor à humanidade, abriu mão de sua glória divina (Fl 2,6-8), o Pai, ao decidir criar seres livres, abriu mão de sua onipotência: a partir do momento que foi criado o primeiro anjo ou ser humano, a vontade de Deus deixou de ser única, abriu-se a possibilidade de alguém querer algo contrário ao que Deus quer. Desse modo, a criação não foi vantagem para Deus, mas um ato de renúncia, um ato de amor. O que Jesus fez, Ele o aprendeu com seu Pai! (cf. Jo 5,17; 15,10; Mt 14,27).

Alguns, inconformados com um Deus que, por amor, renunciou ao seu poder, preferiram criar para si um deus que pudesse ser mau, contanto que fosse todo-poderoso. Assim o fez, por ex., o calvinismo (ancestral de boa parte das igrejas pentecostais de nossa época), com sua doutrina da predestinação. Por acreditar que nada pode acontecer contra a vontade divina, julgam que a condenação dos que se perdem só pode ser explicada pela escolha de Deus. Afirmam, desse modo, que Deus, sendo todo-poderoso, de antemão, criou algumas pessoas para a salvação e outras para a condenação eterna.

Mas, um deus que decide criar alguém para ser condenado é um monstro, completamente oposto ao Deus revelado pelo Evangelho. Se ouvisse uma blasfêmia dessas, Jesus, com toda certeza, diria: “Não estão falando do meu Pai”. Trata-se, na verdade, do ídolo do poder, colocado no lugar do Deus verdadeiro. Pessoas que o cultuam preferem um deus que seja mau, contanto que seja poderoso, ao único Deus verdadeiro, que revela sua força na fraqueza da cruz.

Deus não é culpado pela condenação de pessoa alguma, como também não é responsável pelo pecado de ninguém. O pecado é sempre um abuso da liberdade, esta sim, concedida por Deus na criação. Deus não dá permissão para pecar e nem pode forçar pessoa alguma obedecer a sua vontade. Como o pai, na parábola do filho pródigo, que não foi responsável pelos desmandos do filho, mas não podia mantê-lo amarrado em sua casa, Deus lamenta o afastamento, aguarda o retorno do pródigo arrependido e corre a abraçar o filho que volta.

Na tragédia do mistério do mal, da recusa a obedecer à vontade divina, sabemos apenas que Deus é sempre capaz de tirar de algo bom, algo melhor, mesmo do pior pecado cometido. Assim foi com o pecado das origens, que desviou a humanidade do projeto do Senhor e deixou tão graves conseqüências. Como os nossos pecados, o pecado das origens não foi querido nem permitido por Deus, mas foi, por parte do ser humano, um abuso da liberdade e uma traição da amizade oferecida pelo Senhor. Mas Deus foi capaz de inserir esse pecado numa história de salvação e fazer dele uma “culpa tão feliz” [3] que nos proporcionou a “graça de um tão grande Redentor”.

A liberdade é algo tremendo! Trata-se, sem dúvida, da maior capacidade e do maior risco que o ser humano possui. Usá-la traz conseqüências, como veremos no Evangelho da próxima semana.

A liberdade do ser humano, porém, não é absoluta. As conseqüências do pecado e até mesmo a fragilidade humana são fatores que a condicionam, que a limitam. Bem sabia disso o apóstolo Paulo, às voltas com um espinho espetado em sua carne, que era como um anjo de Satanás a esbofeteá-lo, (2Cor 12,7, 2ª. leitura) só Deus sabe a respeito do que ele se referia. Insistentemente o grande apóstolo pediu ao Senhor que o livrasse desse mal, sem obter, contudo, o resultado que esperava. Como Paulo, também nós temos que aprender com nossas fraquezas, para deixar que a força de Cristo habite em nós.

Que o Senhor Jesus, que fez de sua liberdade uma oblação de obediência a Deus, seu Pai, sustente nossa debilidade e nos ajude a usarmos bem a liberdade que Deus nos deu. Assim seja.


[1] O termo veio de Friedrich Nietzsche, embora “Übermensch” parece significar mais literalmente “sobre-humano”, que “super-homem”.
[2] D. Bernardo BONOWITZ, A alegria que vem da Trapa, Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro, 2001, p. 11. Trata-se de um livro de homilia de um abade trapista; a homilia que nos referimos, “Um poder transformador” foi feita na festa da Imaculada, em 1996 e merece ser lida.
[3] Canto do anúncio da Páscoa (Exultet).

 
 
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