Seminário celebra 100 anos de fundação

Com uma celebração eucarística presidida por dom Carmo João Rhoden, o clero diocesano se reuniu na capela do Seminário Diocesano Santo Antônio para a comemoração dos cem anos de fundação daquela casa de formação. Poucos leigos presentes e entre eles o diretor do Colégio Idesa, José Saud, que também comemora o centenário do seu colégio. Voz corrente na diocese de Taubaté, o que se celebra, de fato, são os cem anos de formação presbiteral diocesana, não se pode esquecer que juntamente com os seminaristas que se tornaram padres ou não, durante esses cem anos passaram outros tantos alunos pelo externato do colégio diocesano que hoje constitui o Colégio Idesa – Instituto Diocesano de Ensino Santo Antônio – nome que adotou a ala da instituição, antes sob a direção e orientação dos padres diocesanos, que abrigava os alunos que não tinham a intenção de ser padres.

A cerimônia aconteceu no dia 20 de fevereiro, às 9h00. A celebração foi concelebrada pelos bispos dom Antônio Affonso de Miranda, emérito; dom Antonio Carlos Altieri, de Caraguatatuba; pelos padres Ethewaldo Ladislau Naufal Junior, reitor do Seminário Teológico Cura D’Ars e Antonio Fernando da Costa, nomeado reitor do seminário aniversariante durante a missa.

A nomeação do padre Antonio Fernando para a reitoria do Seminário Diocesano Santo Antônio obedeceu a alguns ritos determinados pelo Código Canônico, como o juramento de fidelidade e obediência ao bispo diocesano e à formação presbiteral de acordo com as orientações da Igreja. Em sua homilia dom Carmo salientou a vocação do padre reitor como um verdadeiro pai dos seminaristas e atribuiu a todos os presbíteros a corresponsabilidade pela formação e pelo funcionamento do seminário. No final da cerimônia, dom Antônio alertou sobre o perigo de uma formação academicista que não contemple com prioridade a formação espiritual dos seminaristas face à secularização do mundo nos últimos anos em que se deu muita ênfase à formação acadêmica. Para ele, o seminário precisa formar padres que rezam, que meditam as Sagradas Escrituras, que estão em intimidade com Deus, que se penitenciem, mortifiquem-se, frequentem com assiduidade o sacramento da penitência, padres que se configurem com o Cristo pastor.

Logo após, dom Altieri tomou a palavra para algumas ponderações de quem tem experiência de vinte e cinco anos como formador, inclusive em Roma, onde era formador de sessenta padres quando foi chamado pelo cardeal Ré para ser bispo. As palavras do bispo de Caraguatatuba se resumiram no pensamento de Dom Bosco, segundo o qual pensar sempre em se preocupar com a vocação dos outros é tornar mais sólida a própria vocação.

O novo reitor tomou a palavra em seguida para agradecer a confiança depositada nele por dom Carmo. Após a celebração houve um almoço de confraternização.

Os primeiros anos do seminário: testemunho do padre José Romão da Rosa Góes
Trechos de um artigo escrito para as comemorações do 25º aniversário da posse de dom Epaminondas como primeiro bispo da diocese de Taubaté. Escrito em 20 de julho de 1934.

Eu cursava o Seminário de Pirapora em 1909 quando, no fim desse ano, meu pai recebeu uma carta do senhor Bispo. Dizia-lhe que ia fundar o seu seminário e pedia-lhe a minha transferência de Pirapora para Taubaté. De fato, no dia 15 de fevereiro de 1910, fui dos primeiros a chegar ao novo Seminário, que ainda não tinha sido inaugurado.

(...) No começo da avenida Tyndal, em terreno aberto, existia um pequeno sobrado que se destinava a um asilo pertencente à Ordem Terceira de São Francisco. Não podendo ser concluído por falta de numerário, dom Epaminondas adquiriu-o por compra. Em troca de dez contos de réis e umas pequenas casas onde funcionou o Colégio Santa Verônica. O terreno foi dado pelo senhor Visconde de Tremembé ao bispado, isto é, para o seminário. Foi debaixo das modestas arcadas desse sobrado que, a 20 de fevereiro de 1910, reuniram-se os professores e os alunos do novo estabelecimento de ensino. Era o berço do seminário.

Éramos, então, 24 alunos. (...) Falou o Exmo. Mons. Castro para, em nome do senhor bispo, declarar inaugurado o Seminário de Santo Antônio. Em nome dos alunos orou o seminarista José Benedicto Alves Monteiro, hoje mui digno vigário de Caçapava.

(...) O sobrado era tão pequeno e modesto que, se em baixo tínhamos as salas de aula, em cima, num mesmo salão, tínhamos o dormitório, o salão de estudos e até o refeitório.

Aqui dormíamos e tomávamos o café; no Convento Santa Clara, ouvíamos diariamente a missa, recebíamos a santa comunhão, tomávamos as refeições e fazíamos lá o nosso recreio.

Que boas refeições nos davam os padres capuchinhos! Que belos tempos aqueles que só voltam nas asas da saudade!

(...) O terreno que o senhor Visconde de Tremembé doou ao bispado era completamente aberto, no começo de 1910. Aos poucos foi sendo cercado, primeiro com muro de taipa, mais tarde com muro de tijolos, como até hoje se vê.

(...) O seminário passou a ser a preocupação constante de dom Epaminondas e até agora tem sido a menina dos seus olhos de pai extremado e pastor vigilante. Crescendo de ano para ano o número de alunos foi necessário continuar as obras de construção do seminário obedecendo a uma planta feita de antemão.

O senhor doutor Pedro Costa, quando deputado conseguiu com o governo do estado uma verba de vinte e quatro contos de réis. Fez-se então a cozinha, mais um dormitório, o refeitório e os quartos para os professores. Era urgente necessidade uma capela, para evitar a saída diária dos seminaristas a caminho do Convento. Foi no governo do doutor Albuquerque Lins, que o senhor cônego Dr. José José Valois de Castro conseguiu do Tesouro do estado uma isenção de imposto de transmissão, no valor de cinqüenta e dois contos, em favor do seminário. Fez-se então a construção da magnífica capela de Santo Antônio, que foi inaugurada a 13 de junho de 1414. Todos podem facilmente compreender que a construção da capela ficou em muito mais de cinqüenta e dois contos, talvez o dobro dessa importância. A oração fervorosa do senhor bispo alcançou sempre os meios necessários para a realização das suas obras. Tudo quanto ele fez custou enormes sacrifícios. Mas, onde haverá méritos sem sacrifícios? Era preciso, além da capela, completar a planta do seminário.

Organizou-se na diocese uma tômbola quer rendeu perto de oitenta contos. Isto significava, é claro, a continuação das obras. Tudo ia sendo feito com estilo e bom gosto. Nada escapou à larga visão do senhor bispo.

As pessoas que visitam o seminário, depois de percorrerem todas as suas dependências, levam daqui a melhor impressão. Os pátios amplos e arejados, onde os seminaristas passam horas de alegria e santo prazer; o asseio; o conforto; a higiene que se nota em toda parte, são coisas que impressionam bem aos visitantes mais exigentes. Tivemos, desde 1913, o seminário maior ao lado do seminário menor, tudo, porém, de acordo com o que determina e exige a Santa Sé neste particular.

(...) Quem foi o primeiro reitor e quais os primeiros professores?

O saudoso e santo capuchinho Frei Bernardino de Lavalle, guardião do Convento Santa Clara foi o primeiro reitor. Que Deus tenha no céu a alma do virtuoso Frei Bernardino, que faleceu santamente em São Paulo, no Convento da Imaculada conceição. Foram os primeiros professores: monsenhor Antonio Nascimento Castro, Frei Fidelis Motta, Frei Felicíssimo, Frei Salvador Cavedine, doutor Gastão Aldano Vaz Lobo da Câmara Leal e doutor Euzébio Inocêncio Vaz Lobo da Câmara Leal, tendo falecido este último há três anos. O vigilante era o irmão leigo, Frei Diogo da Bahia, que hoje reside em Santos, no Convento do Embaré. Frei Diogo, que muito nos queira, sempre soube, como vigilante, conciliar a bondade com a energia.

Digamos logo que, desde 1910 até hoje, vários reitores se sucederam na direção do seminário. Foram eles: padre Antonio Firmino Vieira de Araújo (já falecido), padre José Soares Machado, padre Paulo Machado, padre Victorino Ferreira (já falecido), padre Guilherme Toneick, padre José Fortunato da Silva Ramos, padre Aníbal de Mello e o atual reitor padre Victor Mazzei.

(Nota da Redação: O padre José Romão da Rosa Góes faleceu em 9 de abril de 1980.

O NOSSO SEMINÁRIO SANTO ANTÔNIO
Dom Antônio Affonso de Miranda SDN

“É pena que, no Centenário do Seminário Santo Antônio, tão pouco se consiga levantar de um acervo histórico empobrecido, para não dizer nulo, pois o que de histórico existe é o documentário da Cúria diocesana.”

A diocese de Taubaté, que celebrou já Cem anos de fundação, ufana-se agora com os Cem anos da fundação de seu Seminário, que Dom Epaminondas Nunes D´Avila e Silva instituiu logo depois de investido nas funções de Pastor.

Homem de visão, de perspectivas do futuro, ele percebeu de imediato que seu pastoreio não teria sequência se não formasse Padres, que quanto antes lhe viessem em ajuda na ação evangelizadora das paróquias de tão extensa diocese. O território se esparramava desde Mogi das Cruzes até Bananal, na entrada do Estado do Rio, e englobava ainda a zona litorânea de Ubatuba, Caraguatatuba, Ilha Bela, São Sebastião, Ilha dos Porcos e São Francisco. Era, pois, um desafio a imensidão das distâncias e o número das povoações, na maioria sem clero que as assistisse.

Mas o corajoso Prelado não desfaleceu. Assim, a 20 de fevereiro de 1910 (lá se vão cem anos…), iniciava-se o Seminário Santo António ali mesmo onde, mais tarde, se ergueu o conjunto Seminário e Instituição de Ensino Santo António (IDESA). O primitivo prédio era da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.

Segundo narra seu biógrafo, Dom Epaminondas foi presença animadora na formação dos primeiros seminaristas. Quando não estava em visita pastoral, transferia-se do Palácio Episcopal para o Seminário, e ali permanecia atento à disciplina, aos estudos e à formação espiritual.

Transcorreram anos de paciente espera até que se ordenassem os primeiros padres. Foi somente a 12 de junho de 1914 que Dom Epaminondas ordenou o primeiro padre de sua diocese – Pe. Custódio Bernardo da Silva, e a 22 de Fevereiro de 1915 ordenava o Pe. José Benedito Alves Monteiro, e somente a 9 de Setembro de 1916 ordenou o Pe. Plínio Gonçalves de Freitas, e, enfim, ordenou, a 29 de setembro de 1917, o Pe. Israel Luiz Moreira.

É o que se vê registrado no primeiro livro dos Termos de Ordenações do Bispado de Taubaté, às folhas 10, 13, 15 e 17.

\ Mais tarde, a 20 de abril de 1919, frutos também da formação de nosso Seminário, eram ordenados em nossa Catedral, pelo Exmo. Núncio Apostólico D. Angelo Scapardini, os Padres José Vita e José Romão da Rosa Goes. E a 20 de dezembro do mesmo ano, Dom Epaminondas ordenou o Pe. Annibal Gravina.

No ano de 1920, dez anos de existência do Seminário, Dom Epaminondas ordenava, a 11 de Julho, os Padres Francisco Lino dos Passos e João José de Azevedo.

Eram estes os primeiros frutos, se assim podemos dizer, de nosso Seminário Santo Antônio, pois ali todos esses sacerdotes iniciaram sua formação, creio que até à filosofia.

Não constam anotações pormenorizadas sobre o Seminário, ou perderam-se os registros primitivos. Lastimavelmente, nem em nossos dias, existe um “Livro de Tombos”, para consignar os acontecimentos marcantes da história de uma instituição tão importante quanto um Seminário. Sugiro que comecem a elaborá-lo de agora para frente, contanto que seja escrito por pessoa que o saiba fazer em forma que mereça passar à posteridade.

É pena que, no Centenário do Seminário Santo Antônio, tão pouco se consiga levantar de um acervo histórico empobrecido, para não dizer nulo, pois o que de histórico existe é o documentário da Cúria diocesana.

Felizmente, podemos agradecer a Deus que o empreendimento de Dom Epaminondas para formar Padres exista há CEM ANOS, nos quais, certamente, formou excelentes sacerdotes, e deu ao mundo leigo, mercê dos estudos e rígida formação ali ministrada, homens de envergadura para a sociedade, muitos deles conhecidos. Não vamos citar nomes, para não incorrermos à fatalidade de esquecer, quem sabe, os mais importantes.

Numa visão de fé, que não pode ser esquecida, os CEM ANOS DO SEMINÁRIO SANTO ANTÔNIO representam misterioso desígnio do Senhor da História sobre a nossa Taubaté e sobre todo o Vale do Paraíba.